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Marco Aurélio Antunes

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Wednesday, 12 March 2008

Entre o Brasil e a África
 

Alberto da Costa e Silva tem duas paixões: a poesia e a história da África. É atualmente o maior africanólogo em língua portuguesa, autor de obras monumentais, como A enxada e a lança e A manilha e o libambo. Diplomata de carreira, trabalhou em vários países africanos, e tal experiência foi importante para suas pesquisas. O livro Um rio chamado Atlântico (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2003) reúne dezesseis textos de Alberto da Costa e Silva sobre as relações históricas entre o Brasil e a África. Um deles, intitulado O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX, está publicado na Internet.

No texto As relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à Primeira Guerra Mundial, Alberto escreve sobre os problemas predominantes nas preocupações externas do nosso país após o reconhecimento da independência. São problemas ligados ao tráfico de escravos e à navegação comercial entre o Brasil e a África. O autor trata das relações entre Brasil e Grã-Bretanha, que, de grande mercadora de escravos, transformou-se em militante da abolição do tráfico. Também são abordadas as comunidades de brasileiros que se instalaram em vários pontos da costa africana, ex-escravos que lá difundiram seus valores culturais.

Em outro texto que está entre os melhores do livro, O Brasil, a África e o Atlântico no século XIX, Alberto diz que muito do que se passava na África Atlântica repercutia no Brasil, e vice-versa. Os contatos através do oceano eram constantes. O autor considera o Brasil um país extraordinariamente africanizado: há muito de africano na nossa maneira de ser e de viver. Já na outra costa atlântica, os brasileirismos estão presentes nas comidas, danças, tradições, palavras etc.

Há muitas Áfricas, diz Alberto da Costa e Silva. O continente é vário, diversificado. No texto O Brasil e a África, nos séculos do tráfico de escravos, o autor afirma que nenhum de nós confunde um imigrante italiano com um alemão; não temos dificuldade em distinguir entre as heranças alemãs e italianas. Deveríamos ser capazes de fazer o mesmo em relação aos africanos pertencentes a diversas nações.

Há vários textos nos quais Alberto relata suas experiências na África. Podemos citar Uma visita ao Museu de Lagos e Os sobrados brasileiros de Lagos. Em A propósito do frevo, Alberto sugere que o ritmo teria origem africana, pois em 1972 ouviu tocar e dançar o frevo numa festa na Costa do Marfim. No texto Um domingo no reino de Dangomé, o autor trata de sua visita à cidade lacustre de Ganvié, onde a comitiva brasileira de que participava foi recebida com grande entusiasmo.

O notável conhecimento de Alberto da Costa e Silva sobre história da África amplia a sua compreensão da história da escravidão no Brasil, explicada em capítulos como Ser africano no Brasil dos séculos XVIII e XIX, Comprando e vendendo Alcorões no Rio de Janeiro do século XIX e Sobre a rebelião de 1835, na Bahia. Vale a pena citar seus comentários sobre o papel do africano escravizado no Brasil: “Creio que gostaria [o africano] que dele não esquecêssemos o exílio forçado, a humilhação e o sofrimento, mas que também lembrássemos a criatividade com que se deu a uma terra que logo fez sua, ocupou com seu trabalho e encharcou de beleza. Seríamos não só injustos e ingratos, mas também não merecedores de seu exílio, de sua humilhação e de seu sofrimento, se olvidássemos o papel enorme e decisivo do escravo na construção do Brasil. Se alguém merece ser o herói nacional deste país, este alguém é ele” (p. 164).

No último capítulo do livro, Alberto da Costa e Silva escreve sobre a evolução dos estudos de história da África, uma disciplina nova, embora seja antiga e ampla a bibliografia histórica sobre a África. São valiosas as informações da bibliografia comentada pelo autor. Alberto da Costa e Silva é defensor do estudo da história africana como um dos pontos focais para a educação no Brasil, mas alerta para os riscos de que seja apropriada por uma parte da população brasileira. A história africana, que tem valor próprio, precisa ser utilizada para explicar o Brasil como um todo.


 

posted by: antunesmat at 15:39 | link | |
alberto da costa e silva

Wednesday, 05 March 2008

Nossa nação não é bicolor
 

Nos últimos anos, a questão das cotas raciais tem sido objeto de muita polêmica. No entanto, em raras vezes os debatedores apresentam dados que dêem sustentação às suas teses. Ademais, há o problema da leitura incorreta das estatísticas, bem como os estereótipos que tentam desqualificar como racistas aqueles que se opõem às cotas e negam que o Brasil seja uma nação bicolor, em que brancos oprimem negros.

O livro Não somos racistas (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2006), do jornalista Ali Kamel, contribui para o enriquecimento dos debates. Apresenta, em linguagem clara e direta, argumentos sólidos que refutam idéias equivocadas sobre a situação de brancos, pardos e negros do Brasil e apontam os erros de políticas que, em vez de ajudar certos grupos, causam-lhes mais problemas e ameaçam transformar o Brasil num país de conflitos.

Em vez de valorizar a miscigenação, de considerar a mestiçagem como uma virtude, a nova tendência é apresentar o Brasil como uma nação dividida entre brancos e negros, de forma semelhante aos esquemas simplórios que catalogam os indivíduos como opressores e oprimidos, reacionários e progressistas. Mas, como escreve Ali Kamel, o Brasil é caracterizado por relações de amizade inter-raciais, casamentos mistos, inexistência de barreiras institucionais contra os negros, ausência de conflito e de consciência de raça.

Ao estudar a gênese contemporânea da nação bicolor, Kamel mostra como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso foi coerente com as próprias idéias de sua juventude, quando escreveu as obras Cor e mobilidade social em Florianópolis e Capitalismo e escravidão no Brasil meridional. Em seu governo, FHC implantou o Programa Nacional de Ações Afirmativas. Como ele mesmo afirmou, isso significou uma mudança de mentalidade na população. A partir de então, a tendência tem sido a ampliação das políticas de cotas raciais, ainda mais no governo Lula, com a criação da Secretaria da Igualdade Racial, entre outras iniciativas que buscam resolver de forma precipitada problemas cujas verdadeiras soluções exigem seriedade e não demagogia.

Se é verdade que na população pobre há maior percentual de negros e pardos do que a proporção deles na população geral, que negros e pardos são minoria em determinados setores, também o é o fato de que tais situações não são necessariamente provas de racismo. O mesmo argumento vale em relação a mulheres ou qualquer outro grupo: se não estão devidamente representados em certos setores, isso não é prova de discriminação. Provar a existência ou a inexistência de discriminação ou de racismo é tarefa posterior, que buscará as causas dos dados obtidos inicialmente.  

No caso brasileiro, Ali Kamel mostra que não se trata de racismo. Existem casos de racismo, mas toda forma de discriminação racial é combatida em lei. E a lei deve beneficiar apenas os indivíduos que sofreram racismo, sem privilégios a todo um grupo de pessoas que não passaram pela mesma situação. O ponto fundamental a ser destacado é o de que no Brasil o racismo não é estrutural. O problema do Brasil não é o racismo, que não é um traço dominante da nossa cultura.

Importante é o capítulo em que Kamel escreve sobre a inexistência de raças entre os seres humanos, o que é consenso entre geneticistas. Raças existem em cães, por exemplo, não em humanos. A crença na existência de raças é a base de todo racismo. Não existem genes exclusivos de determinada cor. Em relação às doenças, pode-se dizer o mesmo. A cor da pele não determina sequer a ancestralidade. Raça é uma construção cultural e ideológica. De acordo com o geneticista Craig Venter, o primeiro a descrever a seqüência do genoma humano, “raça é um conceito social, não um conceito científico”.

Outra questão que merece ser discutida é a da omissão dos pardos. Para sustentar a tese equivocada de que o Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, somam-se os negros e os pardos. Ao importar uma terminologia dos Estados Unidos, os pardos são considerados negros. Ora, a nossa realidade é outra. Aqui há miscigenação. Segundo dados do IBGE, a população brasileira é formada por 51,9% de brancos, 5,9% de negros e 42% de pardos.

Se por um lado os pardos são somados aos negros, quando se quer aumentar o número de “oprimidos” e dar peso às reivindicações de certos movimentos, por outro lado os pardos são barrados em algumas universidades que adotam as cotas como forma de ingresso. Na autodeclaração ou na análise de fotos, não haverá critérios objetivos para enquadrar todas as pessoas supostamente discriminadas entre aquelas que serão privilegiadas pelas cotas. E, mesmo que houvesse, tais políticas não seriam justas. Aliás, as políticas de cotas, além de injustas, são prejudiciais.

Quando relacionamos o nível cultural e a condição econômica, percebemos que o salário é tanto melhor quanto melhor é o ensino. Não se pode deixar de levar em conta a qualificação educacional quando são feitas comparações entre brancos, pardos e negros. Aliás, tais comparações só se justificam entre grupos com características semelhantes. Não existe o branco médio, o pardo médio ou o negro médio. Há variações em cada grupo. Quando são feitas comparações de acordo com os critérios adequados, verifica-se a paridade entre os grupos, como no caso dos trabalhadores domésticos, entre os quais não há diferenças significativas no rendimento de brancos, pardos e negros.

Brancos, negros e pardos pobres têm as mesmas dificuldades. A proporção mais elevada de negros e pardos entre os pobres se deve ao fato de que a ascensão social é mais difícil para os pobres, que não têm oportunidade de educação qualificada. É a própria pobreza a limitação, não o racismo. Como o ponto de partida era desfavorável, já que foram escravos, negros e pardos em geral não conseguiram superar a pobreza. Muitos de seus descendentes, com poucas oportunidades por viverem num país subdesenvolvido, em que a educação não é prioridade da maioria dos governantes, não elevaram seu padrão de vida. Conseqüentemente, permaneceu o desequilíbrio na comparação entre a proporção de negros e pardos na população geral e a proporção de negros e pardos entre os pobres.

Por outro lado, não se pode negar que algum progresso houve. O Brasil do século XXI não é o mesmo daquele de décadas passadas. Melhoraram os indicadores sociais, e isso beneficiou pessoas de diversos segmentos, embora não tanto como nos países desenvolvidos. Com o progresso da ciência e da tecnologia, é normal o progresso de um país na comparação com seu passado. O progresso é a regra, não a exceção. O problema é que tal progresso foi lento, insuficiente para dar ao conjunto da população as condições de vida dignas que todos desejamos.

À medida em que o país se desenvolve, a tendência é o equilíbrio entre os grupos sociais. A proporção de brancos, pardos e negros entre as diversas faixas de renda será equivalente à proporção desses grupos no conjunto da população, uma vez que todos terão acesso a uma educação de qualidade, por meio da qual terão os empregos que os levarão superar a pobreza e atingir um padrão de vida satisfatório.

O que existe no Brasil é o preconceito social, o desprezo aos pobres, que Ali Kamel chama de classismo. É à análise da pobreza e de suas causas que o autor dedica alguns capítulos do livro. O desperdício de dinheiro com políticas assistencialistas (que não resolvem o problema da pobreza) e gastos excessivos com o ensino superior diminuem os recursos para a educação básica, que deveria ser a prioridade. Em grande parte das escolas brasileiras, faltam bibliotecas, laboratórios, computadores etc. Além disso, o salário dos professores em geral é baixo. Em relação ao gasto público como proporção da renda per capita no ensino fundamental e no ensino médio, o Brasil está em posição vexatória na comparação com outros países.

Ali Kamel discute bastante temas relacionados à educação, por meio da qual os brasileiros terão um futuro melhor, desde que ela seja de alta qualidade e acessível a todos. São dele estas palavras, publicadas na página 40 do livro: “Tenho procurado mostrar que, mais que ao racismo, a má situação do negro no Brasil se deve à pobreza e que não existem atalhos fáceis para superá-la, como cotas ou políticas assistencialistas. O único caminho seguro para que o país se torne mais justo é a educação”. Se deixarmos de lado o gosto pelas soluções fáceis, estudando sem preconceitos a situação de brancos, negros e pardos no Brasil, notaremos que nossa nação não é bicolor. Em termos de ideal civilizatório, uma nação misturada como o Brasil é superior às nações multiétnicas, em que a mistura é evitada. Temos, portanto, motivos para valorizar e preservar esse traço da nossa identidade cultural.


posted by: antunesmat at 19:18 | link | |
ali kamel



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